Site Meter

Monday, February 02, 2009

Sonho de mudança

April e Frank Wheeler são um casal em crise. Ela não se sai bem como atriz, ele odeia o trabalho, e eles têm dois filhos para sustentar. A rotina os conduziu a uma teia de brigas e traições. Para resgatar o casamento, April decide recuperar o que eram quando se conheceram: um casal que queria fugir do convencional – em que, ironicamente, acabaram mergulhados. Este é basicamente o mote de “Foi apenas um sonho”. Mas o filme de Sam Mendes é mais do que a história da decadência de um casamento, é uma mostra de como a coragem pode ser confundida com loucura em uma sociedade que defende o benefício de ser “normal”.

Na produção, os belos Kate Winslet e Leonardo DiCaprio concordam em se mudar para Paris, cidade memorável a Frank. Os amigos e colegas de trabalho consideram a escolha imatura e irresponsável. Mas, como se estivessem na linha de frente de uma guerra, segundo o marido, enfrentam a desaprovação entusiasmados. Até que alguns acontecimentos significativos os puxam para a realidade, e a fuga se transforma em sonho.

Winslet e DiCaprio representam com precisão, sustentando o filme consistentemente. As questões do casal, as intensas discussões e o ímpeto de escolher uma vida que realmente se quer os persegue ao longo dos tensos 119 minutos da produção. Por outro lado, ronda também, através do universo que os cerca, a força dos preceitos aceitos socialmente. Ter coragem para buscar a satisfação se torna insanidade – e negligência, em se tratando de um casal com dois filhos pequenos na década de 1950.

Nesse jogo de subversões, o filho louco do casal de vizinhos Helen e Howard Givings, como um bobo da Corte de peças medievais, revela as dolorosas verdades. Como corajoso, assume a função de fazê-lo. Como louco, pode ser silenciado.

Labels:

Monday, June 23, 2008

Numa piscina com patos

Com a consolidação do tráfico de drogas, que relegou para segundo plano a venda ilegal de armas, a prática do jogo e a prostituição, a máfia italiana teve de se renovar. Incorporar a nova atividade significava continuar dominando os negócios ilegais tremendamente rentáveis nos Estados Unidos. Por outro lado, como as punições para o tráfico de drogas eram muito mais severas, a mudança implicava abrir mão dos fundamentos da filosofia do grupo, que pregava, acima de tudo, fidelidade aos parceiros do crime, garantindo uma grande rede de pessoas baseada na lealdade e na troca de favores.

Até aí, nada de novo. A trilogia de Francis Ford Coppola, os volumes I, II e III de Poderoso Chefão, em especial o terceiro filme, colocam esse conflito. Mas os rumos que essa situação toma são brilhantemente abordados na série Família Soprano (The Sopranos). Em vez de Nova York, o foco é New Jersey (a Osasco deles), em vez deMichael Corleone, há Tony Soprano, mas, da mesma forma, assiste-se à saga de um homem isolado pelo poder, rodeado por influências em que não pode confiar, que criticam suas atitudes pelas costas e cobiçam sua posição, e atormentado pelo drama da sucessão. Enquanto isso, a máfia tenta sobreviver aos tempos modernos, esquivando-se da justiça, que fecha o cerco cada vez mais, e confrontando-se com outros grupos de crime organizado. O que difere os dois cenários, na verdade, é sua complementariedade: Família Soprano retoma o fio da meada de Poderoso Chefão décadas depois.

Mal comecei a assistir o box da primeira temporada, mas posso dizer que fiquei embasbacada com a forma deliciosa como a série aborda a questão da sobrevivência da máfia em um plano e, em outro, as angústias de um homem no mundo contemporâneo – um mafioso que, além de ter de lidar com as dificuldades implicadas pelo poder e pela crise de valores da máfia, tem de se dedicar a um casamento quase fracassado, a uma mãe senil de temperamento difícil e a dois filhos, entre eles uma adolescente rebelde. O elo entre esses universos são as sessões de terapia de Soprano, que busca ajuda depois de ter alguns ataques de ansiedade.

Assim, a série se sustenta não só pela construção da realidade de um grupo criminoso que busca achar seu lugar na sociedade atual, mas pela ironia que circunda a figura de Tony Soprano: o chefe da máfia frio e inescrupuloso que se sente deprimido diante da crise de valores da sociedade pós-moderna e se sensibiliza com acontecimentos bucólicos, como o surgimento de uma família de patos, também perdidos nesta nova era, em sua piscina.

Labels:

Monday, June 02, 2008

Peça de teatro para encerrar o fim de semana

Embalados pelo famoso forró “Acorda Maria Bonita”, de Antônio dos Santos, um dos “cabras” de Lampião, os atores Marcos Palmeira e Adriana Esteves entram no palco informalmente. Meio dançando, meio montando o cenário, auxiliados pelos dois contra-regras coadjuvantes da peça, constroem um clima alegre, nordestino, ao passo que se estabelecem como Virgolino e Maria de Déa.

Instantes depois, apagam-se as luzes e dá-se início a Auto de angicos, peça em cartaz no Teatro da Universidade Católica de São Paulo (Tuca), dirigida por Amir Haddad com texto de Marcos Barbosa, que encerra temporada bem sucedida de pouco mais de dois meses no próximo domingo, 8 de junho. Assim que as luzes se acendem novamente, desta vez em tom arroxeado, vê-se Virgolino preocupado e, em seguida, pede que a mulher lhe faça café, como nos versos da música.

O texto resgata a última noite do casal imortalizado na cultura popular brasileira, Lampião e Maria Bonita. Na primeira metade da encenação, os personagens revelam seu universo íntimo de casal, estabelecendo discussões cíclicas um pouco cansativas. Na segunda metade, expõem o conflito principal: Virgolino tem um mau presságio quanto ao futuro dos dois. O texto bonito, permeado de momentos de amor, comicidade e brigas, bem interpretado por Palmeira e Esteves deixa uma sensação agradável de fim de domingo.

Haddad, um dos fundadores do Teatro Oficina e diretor de grupos alternativos na década de 1970, consagrou-se por seu ecletismo em conduzir tanto megaespetáculos quanto peças menores, tendo ganhado o Prêmio Shell por Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come, de Oduvaldo Vianna Filho e Ferreira Gullar, em 1989, e o Prêmio Sharp, por O mercador de Veneza, de William Shakespeare, em 1996. Em Auto de angicos, mescla aspectos dos dois universos sem cair na incoerência: une atores globais de alta popularidade com produção singela, de poucos recursos. No tablado de madeira, vêem-se apenas objetos do casal. Destaque para os fios de náilon pendurados que circundam o palco, simulando a chuva da quase manhã. No encerramento, os fios são iluminados e compõem uma aura mágica.

Além de recuperar a lenda do casal cangaceiro, a peça resgata o idealismo e heroísmo de Lampião. Transmite a mensagem de que, mesmo por meio de ações criminosas, Virgolino ocupou a vida combatendo a injustiça social, e mais vale assim fazer que se posicionar de forma passiva diante da vida e dos horrores que acontecem. A lição é válida, mas, num país em que as pessoas mal têm cidadania para assistir a uma peça teatral, deixando celulares ligados e conversando, fica a sensação de que é praticamente utópico acreditar em transformações.

Labels:

Wednesday, May 28, 2008

They can’t get no satisfaction

O rock não está morto. Mick Jagger, Keith Richards, Ron Wood e Charlie Watts muito menos. Essa é a sensação que o documentário sobre a banda Rolling Stones, Shine a light, a nova obra-prima do diretor norte-americano Martin Scorsese, transmite. Como o próprio título sugere, Scorsese enfoca o brilhantismo desses artistas sessentões por meio de artefícios plásticos de iluminação e fotografia, oferecendo um tributo à banda e aos fãs.

Quem espera um documentário clássico, forrado de entrevistas, depoimentos reveladores e história completa da banda, pode se decepcionar. Em Shine a light o diretor optou por retratar os Stones mostrando o que fazem de melhor: apresentar-se ao público. Em um pequeno teatro – sob os protestos de Mick Jagger, acostumado a pular e dançar para platéias imensas –, os quatro fazem um show para um seleto grupo de pessoas, que inclui o casal Bill e Hillary Clinton, sob a direção, mais fotográfica que artística, de Scorsese.

Show à parte é o início do documentário, em branco-e-preto, que retrata a etapa de organização da apresentação, quando Martin tenta descobrir o repertório musical planejado pela banda, discute com Jagger detalhes da produção e mostra a dificuldade de se lidar com roqueiros detentores de tamanho sucesso, tão acostumados a conduzirem shows e entrevistas como desejam.

A partir daí fica difícil recostar na cadeira e ficar parado. A plástica sonora permite que o espectador se sinta parte da platéia do show. Os movimentos rápidos de câmera conseguem a proeza de acompanhar o irriquieto Jagger, de captar os olhares cúmplices entre os guitarristas Richards e Wood e a serenidade que beira a sisudez do baterista Charlie Watts. A luz polêmica, que quase torra os músicos, forma uma aura em torno deles, reiterando a sua magnitude no palco.

Alternadas às canções, aparecem cenas breves com trechos de entrevistas brilhantemente selecionados. Em vez de escolher um material que mostrasse a trajetória dos Stones, Scorsese prefere divertir a platéia com respostas irônicas que dialogam com a realidade atual da banda de forma engraçada. Como quando questionam a Mick Jagger, com mais ou menos 20 anos, se ele acha que a banda vai tocar muitos anos ainda. Jagger responde: “Mais um ano pelo menos.” E diz que se via, sim, no palco aos sessenta.

O filme é uma experiência catártica. Um show de vitalidade, energia, cumplicidade e amor à profissão e à arte. Mesmo não sendo senhores de idade tradicionais, os Stones transmitem aquela mesma sabedoria clássica de quem viveu muitos anos e domina a atividade que praticou a vida inteira. É bonito notar a sintonia perfeita da banda e a serenidade do quarteto. Melhor ainda é sentir o mais genuíno e contagiante espírito do rock’n’roll.

Labels:

Tuesday, April 15, 2008

“Nem todas as mulheres gostam de apanhar. Só as normais. As neuróticas reagem.”

Apreciar Nelson Rodrigues leva tempo. Há menos de uma década, lembro-me de não conseguir compreender o fascínio que as vulgaridades e o machismo das obras do dramaturgo despertavam – hoje me regozijo com elas.

Acabo de ler O casamento (antiga edição da Companhia das Letras), o primeiro livro escrito por Nelson Rodrigues para ser publicado como livro, e não em partes nos jornais. O foco da trama é a relação quase incestuosa de Sabino e Glorinha, pai e filha. Ele cheirava as fraldas sujas da caçula; ela sonha com os lábios femininos do pai e com os pés – objeto de despudor, de sujeira – sempre escondidos em meias grossas. Ela está às vésperas de seu casamento; ele descobre que o genro foi visto beijando outro homem. Em meio a isso, os personagens principais, bem como os secundários, revelam seus fetiches e compõem um emaranhado de falsas aparências e lascividade.

As histórias de Nelson Rodrigues muito me lembram as de Eça de Queiroz. Ambos, dispostos a desmascarar a alta sociedade burguesa, contam fatos chocantes que vão de encontro à moral e aos bons costumes. Nelson vai ainda além – escandaliza nossos pudores, provoca nosso costume de manter secretas (ou de revelar a poucos) as fantasias sexuais, cutuca a ferida mais profunda, nos faz sentir vergonha. E o melhor: consegue desenrolar a narrativa de forma simultaneamente dramática e cômica. Ao mesmo tempo em que o doutor Cascatinha, médico obeso que sofre a morte do filho, provoca pena, ele desencadeia o riso quando deseja ardentemente coçar as berebas da careca ou quando reclama, bêbado, da mulher que não tem bunda, em um país em que o melhor da mulher é a bunda.

Mais do que um romance delicioso, provocativo e irônico, esta é uma história que nos faz sentir tremendamente humanos.

Neste mês de abril, o Centro Cultural São Paulo dedica uma mostra a Nelson Rodrigues, com sessões de cinema, encenações de peças de teatro e debates. Esta semana, faz 30 anos que estreiou nas salas de cinema brasileiras a produção A dama do lotação. O blog do Fantástico disponibilizou a matéria feita pelo programa acerca do lançamento. Confira o vídeo.

É sempre interessante ouvir os comentário polêmicos do personagem ainda mais escandalizante que era Nelson Rodrigues em entrevistas, mas triste é a edição dos anos 1980: as vinhetas ocupam mais tempo que os próprios depoimentos do dramaturgo; pior é a seleção de fotos dessas vinhetas...

Labels: